quinta-feira, 24 de maio de 2012


"Cobertura da mídia consolida visão negativa do Mercosul"

A cobertura equivocada da mídia brasileira, centrada em impasses pontuais, consolida uma visão negativa do Mercosul, que só interessa aos países mais industrializados. A análise é do alto representante geral do Mercosul, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, apresentada durante a primeira audiência pública preparatória para o seminário “Crise, estado e desenvolvimento: desafios e perspectivas para a América do Sul”, nesta sexta (18), no Senado.

Brasília - A cobertura equivocada da mídia brasileira, centrada em impasses pontuais, consolida uma visão negativa do Mercosul, que só interessa aos países mais industrializados. “Há uma campanha permanente na imprensa que menciona que o Mercosul não funciona, que ele cria problemas. É uma campanha permanente, porque os países grandes não querem um Mercosul forte”, afirmou o alto representante geral do Mercosul, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, na primeira audiência pública preparatória para o seminário “Crise, estado e desenvolvimento: desafios e perspectivas para a América do Sul”, nesta sexta (18), no Senado.

De acordo com ele, essa campanha pressupõe relações complexas, que resvalam no comprometimento da imprensa brasileira com os interesses das grandes multinacionais, oriundas dos países exportadores. “Quando um país do Mercosul exporta mais do outro, isso prejudica a economia do segundo e, consequentemente, gera insatisfações. E os noticiários acabam dando ênfase apenas a essas discussões pontuais, que consolidam a visão negativa do Mercosul, tão prejudicial ao países membros”, explicou à Carta Maior. 

O embaixador avalia que o fortalecimento do Mecosul não interessa aos países industrializados porque, para que eles obtenham mais vantagens nas relações comerciais com a América Latina, “é melhor negociar com cada país isoladamente”. Entretanto, Guimarães acredita que o bloco é o principal instrumento para que seus membros (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) possam enfrentar o atual cenário de crise e de transferência do poderia capitalista do norte para a China, mantendo o crescimento da economia e da melhoria das condições de vida das suas populações.

Guimarães explicou que, ao contrário da Comunidade Comum Europeia, o Mercosul nada mais é do que uma reunião aduaneira, que possibilita aos países do bloco adotarem a mesma tarifa para importação de produtos, fortalecendo as relações comerciais entre eles e com os demais países. Por isso, não está sujeito à instabilidade em que vive hoje a União Europeia, cujos membros abriram mão até mesmo de possuir uma moeda própria. Conforme ele, o Mercosul não implica no enfraquecimento das estados.

Ele defendeu, inclusive, o ingresso da Venezuela como país membro. E esclareceu que só não há esforços para que haja, também, a adesão de outros países, porque os demais assinaram acordos com os Estados Unidos que os obrigam a reduzir a zero à tarifa de importação. No Mercosul, essa tarifa, hoje, é de 10%, mas tende a ser elevada para combater a importação excessiva dos produtos industrializados chineses.

O jornalista Mauro Santayana, colunista da Carta Maior, defendeu o fator cultural como instrumento primordial para garantir, de fato, a integração da América Latina. “Precisamos construir a unidade latino-americana. E o instrumento para isso é o Mercosul. Mas só poderemos ter uma unidade econômica quando tivermos uma cultural. Esta é a grande falha da nossa ação”, afirmou. Segundo ele, hoje, essa unidade cultural está restrita aos círculos intelectuais, a alguns blocos empresariais, mas ainda não atinge o povo. 

O jornalista defendeu, ainda, que o Brasil assuma o protagonismo neste processo de integração, adotando uma postura humilde e sendo “o mais tolerante, o mais condescendente, o que mais aceita desaforo”. “Poderoso é aquele que tem o direito de parecer fraco”, afirmou. 

O ex-presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, observou que o mundo passa por uma crise sistêmica, que cria oportunidades para a América Latina, mas também temores. “Embarcamos no discurso da globalização de forma absolutamente temerária. Abrimos mão de todos os instrumentos de salvaguarda nacionais e, hoje, temos um sistema financeiro que é apêndice do que acontece lá fora”, justificou. 

Para ele, que centrou sua palestra na discussão sobre a crise econômica, o fortalecimento dos estados é a única alternativa. “Fora do estado não há solução. Não quero fazer uma ‘estadolatria’. Mas o estado, em última instancia, somos todos nós. Com uma crise dessas proporções, cada sociedade tem que estar coesa para sobreviver. E esta coesão só é possível com o Estado, por meio de um projeto nacional”, comentou. 

O seminário “Crise, Estado e Desenvolvimento: Desafios e perspectivas para a América do Sul”, promovido pela Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul, será realizado no Rio de Janeiro, em 25 de junho

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Mídia e crise: conselheiros da servidão












quinta-feira, 17 de maio de 2012

Por Saul Leblon, no sítio Carta Maior



A sociedade grega vive uma das escolhas mais difíceis da história: agarrar-se às migalhas da servidão ou lutar contra ela com o risco de perder? De um lado o abismo conhecido, de outro o escuro sem nome. Seu povo foi levado ao corredor da morte pela endogamia entre uma elite dissociada dos interesses da população e uma matilha de espoliadores financeiros que reduziu o país a um simulacro de Nação soberana. 



O PIB da Grécia despenca desde 2008; deve fechar em 2012 1/5 menor que o nível pré-crise. Os aposentados foram 'convidados' a viver com pensões entre 20% a 30% menores;o salário mínimo foi cortado em 20% e o desemprego lambe a borda dos 25%. Todo o país está sendo extirpado nessa proporção. 


Macrodados não conseguem traduzir o que se passa nas vísceras de uma agonia quando ela atinge esse padrão. São os detalhes que exprimem a brutalidade quando as taxas de suicídio dão um salto de 40%. O orçamento grego da educação sofreu um corte de 60% este ano. Nenhum organismo subsiste ceifado em 60% do seu todo: nem a merenda foi poupada do arrocho imposto pelos credores. Das periferias mais pobres chegam relatos de desfalecimentos em sala de aula: fome. 



A tragédia miúda funciona como uma endoscopia das consequências sociais e éticas de se preservar a riqueza financeira quando o mecanismo que a sustenta colapsou nos seus próprios termos. A riqueza financeira é o grande cadáver desta crise que resiste insepulto. Exercer seu direito de saque sobre a riqueza material da sociedade implica a partir de agora cortar a merenda das crianças que desmaiam de fome nas periferias da Grécia. É preciso desinflar o poder leonino da banca mas não será o mercado a fazê-lo. Talvez as urnas; quem sabe as ruas. Sempre a política.Nunca as leis da autossuficiência mercadista.



A camada de gelo fino trinca na primavera sombria da Europa.Mas é o lago todo que se revolve por baixo. As engrenagens vitais do mecanismo econômico colapsaram; em vez de emprestar à produção e ao consumo os bancos mantém mais de 600 bilhões de euros no BCE depois de receberem dele um socorro de liquidez de valor equivalente. A cobra come o próprio rabo. 



A rigor a zona do euro já não dispõe de um sistema bancário no sentido estrito termo; a banca tornou-se aqui o termômetro e a febre da crise. Não empresta e já não consegue captar; suas reservas começam a ser corroídas pelo saque. 



A corrida teve início na Grécia. Primeiro, os estrangeiros impuseram um acordo de ajuste pelo qual seu ressarcimento precede as urgências da Nação. 



Agora os residentes engrossam a revoada. Ela ainda não atravessou a fronteira que separa o medo do pânico, mas já ultrapassou a ponte do contágio. Nesta 5ª feira, os espanhóis começaram a sacar suas poupanças. 



As ações de bancos puxam o mergulho das Bolsas na 4ª maior economia do euro. Se a Grécia tombar, a Espanha ocupará sua vaga na fila do vazio. O país está sendo picado, como se pica um touro na arena antes de matá-lo.Os especuladores sangram o corpo espanhol de um lado; a direita no governo lhes oferece mais carne humana do outro. 



Nesta 5ª feira , Rajoy -- o semblante aterradoramente imperturbável da direita que trincha a nação num cepo de açougue-- aprovou mais cortes na saúde e na educação. É um massacre. A exemplo do que se vê na Grécia, pode ser inútil. O dinheiro arisco só aceita financiar o Estado espanhol cobrando juros cinco pontos acima dos pagos por papéis alemães. E só a curto prazo. Quem ainda tem emprego perde poder aquisitivo de forma devastadora. A direita é aplicada e não erra o corte no nevoeiro da crise. Está há apenas cinco meses no poder, mas entregou o prometido: a distribuição da renda nacional já se inverteu a favor dos patrões.Em 2010 os assalariados espanhóis tinham 48,5% da renda; os patrões 43%; hoje as fatias são respectivamente de 45,5% e 46,5%.



O cemitério social enfileira seus cortejos na Europa.Mas a mídia conservadora não arreda pé. A inércia dos aparatos ideológicos bate continência nas colunas, manchetes, na hierarquização do noticiário, nos editoriais explícitos e nos tantos quantos implícitos. 'Não há alternativa', advertem em jogral macabro. Pior que sangrar nas mãos dos mercados é a hemorragia de quem tenta enfrentá-los. Não há salvação fora do ajuste. É a hora da verdade depois da 'gastança'; a cada um o que é seu: a liquidez garantida aos credores; o ocaso ao resto. 



Uma palavra, porém, desconcerta a esférica ordem unida da servidão comandada pela mídia: Argentina. Em 2003, quando começou o ciclo Kirchner, a Argentina era uma espécie de Grécia da América do Sul. Desacreditada aos olhos de seu próprio povo, balançava nas mãos dos mercados especulativos. Nestor Kirchner herdou do extremismo neoliberal uma taxa de pobreza que afetava 60% dos 37 milhões de argentinos. 



A dívida impagável de US$ 145 bilhões comprometia a geração presente, seus filhos, os filhos e netos que um dia eles teriam. A moratória desesperada de 2001 terminara por entupir os mecanismos de crédito e financiamento, sem os quais nenhuma economia funciona. Os credores sobrevoavam a nação argentina como urubus. O cerco contra o país era brutal. A mesma mídia que hoje diz aos gregos não há alternativa interditava o debate de qualquer política que não fosse a da rendição. Poucos listavam-se entre os aliados. 



Mesmo no Brasil, o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, impunha distância sanitária entre Kirchner e Lula, em sintonia com a pressão internacional. 



Para se ter a dimensão do cerco vivido então pela Casa Rosada, basta multiplicar por dez a pressão que a liderança do euro, a mídia, os banqueiros e o FMI fazem hoje contra o povo grego.



Nestor Kirchner não se dobrou: deu sentido estratégico à moratória; impôs um desconto de 70% da dívida aos credores; destinou a receita crescente a programas sociais e de fomento. A taxa de pobreza recuou a 10% da população. A economia argentina foi a que mais cresceu no hemisfério ocidental na última década. 



A rebelião não foi impune. Nenhuma rebelião é impune. Falseiam os que vendem passagens para algum paraíso histórico desconhecido. Rupturas envolvem custos e a Argentina pagou e paga os seus. A banca ergueu um cerco internacional obstruindo o acesso do país ao crédito em dólares. Uma parte da população sofreu adicionalmente na travessia entre a velha e a nova ordem. Mas hoje o país nem de longe lembra o campo de concentração da esperança que o asfixiava antes de optar por um caminho próprio



As circunstâncias desse braço de ferro são espertamente omitidas pela crítica conservadora, que desdenha dos êxitos inegáveis registrados; é preciso a qualquer custo depreciá-los como um ponto fora da curva, um fogo fátuo de populismo anacrônico, inflação maquiada e boom passageiro de commodities. 



Com todas as vulnerabilidades, o dissenso argentino faísca no imaginário da crise como uma opção de reerguimento histórico face ao martírio do moedor ortodoxo em ação na Grécia, Espanha, Portugal e outros. Diante do catastrófico funeral em curso seu exemplo ecoa como um ruído intolerável a arguir a narrativa midiática com o vírus da dúvida: o que é pior, sucumbir pela asfixia ortodoxa ou lutar como fez a nação argentina, na busca de um recomeço com soberania e dignidade?

domingo, 13 de maio de 2012

Aids em Cuba: The New York Times não quer, mas admite o sucesso cubano.


sábado, 12 de maio de 2012




Regime cubano mantém vírus da aids sob rígido controle
Por Donald G. Mcneil Jr. do The New York Times.
Fonte: ÚLTIMO SEGUNDO 
Sucesso de Cuba em conter epidemia decorre em parte das duras medidas do passado e do sistema de saúde universal
Yudelsy Garcia O'Connor, o primeiro bebê a ter nascido com aids em Cuba, não está apenas viva. Ela é uma jovem vibrante e engraçada que, aos 25 anos, se divorciou recentemente, mas espera se casar de novo e ter filhos.

Seu pai morreu de aids quando ela tinha 10 anos, sua mãe quando ela tinha 23. Ela mesma chegou perto de morrer na juventude. "Não tenho medo da morte", disse. "Sabia que ela poderia bater na minha porta a qualquer momento. Ela vem para todos. Mas tomo meu remédio."

Yudelsy está viva em parte graças à intensidade com que Cuba tem atacado a epidemia de aids que aflige o país. Sejam quais forem as críticas às táticas duras do governo no início da epidemia - até 1993 todos os soropositivos eram forçados a viver em quarentena - não há dúvida de que houve resultado. Cuba agora tem uma das menores epidemias do mundo, menos de 14.038 casos. Sua taxa de infecção é de 0,1%, um sexto da taxa registrada nos Estados Unidos e um vigésimo da registrada no Haiti.

A população de Cuba é apenas ligeiramente maior do que a de Nova York. Nas três décadas da epidemia global de aids, 78.763 nova-iorquinos morreram por causa da doença. Apenas 2.364 cubanos tiveram o mesmo destino.

Juan Carlos Miranda, portador do vírus da aids, é observado pelo médico
Victor Maracha em clínica de Santiago de las Vegas, em Cuba (22/12/2011)
Foto: NYT
Outros elementos contribuíram para o sucesso de Cuba: o país oferece assistência básica de saúde universal e gratuita, com testes de HIV realizados rotineiramente e preservativos distribuídos gratuitamente, principalmente para grupos de alto risco, como prostitutas. Os adolescentes do país recebem educação sexual bastante gráfica e qualquer pessoa cujo teste resulte em positivo tem todos seus contatos sexuais rastreados.

A resposta dos Estados Unidos ao problema parece mínima diante disso - o país registra 50 mil novas infecções por ano. Milhões de pessoas pobres nunca veem um médico. O teste do HIV é voluntário e muitos pacientes não retornam para buscar seus resultados. A educação sexual é tão politizada que muitas escolas não ensinam nada sobre sexo seguro, os preservativos são caros e a distribuição gratuita apenas ocasional.

Medidas rigorosas

Cuba foi bem-sucedida mesmo tendo a epidemia geneticamente mais diversa fora da África. Quase todos os casos americanos resultam de um tipo de vírus, o subtipo B. Cuba tem 21 tipos diferentes.

A diversidade genética é um legado da ajuda externa. Desde 1960, Cuba tem enviado ao exterior milhares de "internacionalistas" - soldados, médicos, professores e engenheiros. Estacionados em toda a África, eles trouxeram ao país uma grande variedade de subtipos do vírus.

E o sucesso de Cuba aconteceu apesar do país ser um destino de turismo sexual para europeus e canadenses. "A maioria das prostituas que dormem com turistas sabem que devem usar preservativos", disse Dr. Ribeiro Wong, especialista em aids local.

Em uma pesquisa realizada em 2009, 77% de todas as garotas de programa disseram usar preservativos regularmente.


Jovem distribui camisinhas e folhetos sobre sexo seguro em Havana 
(01/12/2011) Foto: NYT
Há homens disponíveis para turistas gays também, é claro, "mas acreditamos que a transmissão entre homossexuais aconteça principalmente na própria população”, disse o Dr. Luis Estruch Rancano, vice-ministro para a saúde pública. "Principalmente entre um grupo muito promíscuo na comunidade homossexual, aquele que têm muitos parceiros e não tomam precauções."

Um exemplo é Carlos Emilio Garcia, 50, um enfermeiro que viveu e trabalhou em um hospital de quarentena. Ele foi obrigado a fazer teste de HIV no trabalho de seis em seis meses entre 1990 e 1996, mas seu teste deu positivo em 1997. Ele admite ter muitos parceiros. "Não, eu não sei quem foi meu assassino”, afirmou.

O consumo de heroína, que leva a epidemias em muitos países, é praticamente inexistente em Cuba, segundo as autoridades.

Desde 1986, apenas 38 bebês nasceram com o vírus. No sistema de saúde de Cuba, que cuida de um cidadão do berço ao túmulo, mulheres grávidas recebem até 12 consultas pré-natais gratuitas, durante as quais são testadas para o HIV pelo menos duas vezes.

Antes da chegada dos medicamentos antiretrovirais, mulheres infectadas pelo HIV podiam optar por fazer abortos. Caso tenham o bebê, precisam fazer cesárea e a amamentação é desencorajada, para reduzir o risco de transmissão. Agora elas recebem os medicamentos gratuitamente.

Desafio crescente

Com a obrigatoriedade da quarentena abandonada há muito tempo e o vírus propagado principalmente em homens gays e bissexuais, as novas infecções estão crescendo de forma constante e lenta. Elas agora se aproximam de mil ao ano "e ainda estamos aguardando o fim do crescimento", disse Dr. José Joanes Fiol, epidemiologista-chefe do Ministério da Saúde. Hoje, os preservativos e a educação sexual são as principais armas.

A sociedade cubana é o oposto de uma sociedade puritana: pouca roupa é algo comum, assim como o flerte sugestivo, o divórcio e casos extraconjugais.

Foto de 1983 mostra Fidel Castro (sentado,
terceiro da dir para esq) em reunião na qual pediu medidas contra
 a aids ao médico Gustavo Kouri (em pé à esq) 
Foto: NYT
O governo distribui mais de 100 milhões de preservativos por ano. Todo local com os clientes jovens, mesmo pizzarias, precisam ter camisinhas para distribuição.

"Os primeiros preservativos que recebemos vinham da China e tinham borboletas e pinguins no pacote", disse Manuel Hernandez Fernandez, um educador sobre aids há 25 anos. "Tivemos que cubanizá-los."

Agora, uma embalagem mostra um homem apalpando um seio nu e outra mostra dois homens. 

Durante uma campanha de distribuição de preservativos para o Dia Mundial da Aids, mulheres riam enquanto os voluntários - na maioria homossexuais - colocavam as camisinhas em seus decotes fazendo caretas. "Só um?" disse uma mulher. "O que eu vou fazer com apenas um?"

Apenas cerca de metade dos 11.674 cubanos que vivem com HIV tomam antiretrovirais.

Em teoria, Cuba seria o laboratório ideal para o "teste e trate", novo protocolo no qual os pacientes que testarem positivo começariam imediatamente a tomar os remédios para reduzir em 95% sua probabilidade de infectar outras pessoas.

No entanto, isso exigiria remédios modernos e Cuba só produz os mais antigos. Apenas cerca de 1,1 mil pacientes recebem medicamentos novos, pagos por doadores estrangeiros.

"Sabemos sobre o 'teste e trate'", disse Perez. "Gostaríamos de fazê-lo, se pudéssemos. Mas precisamos de verba para isso. "


sexta-feira, 20 de abril de 2012

O colonialismo liberal europeu mostra a sua face


 










É o cúmulo do absurdo que o Parlamento Europeu, que reúne representantes do povo, se preste a votar uma resolução contra a Argentina, em defesa dos interesses de uma multinacional. O mesmo parlamento que nada faz para denunciar as empresas do Velho Continente que, em nome da segurança jurídica, investiam seus capitais em países amordaçados por regimes assassinos que, ao mesmo tempo que ofereciam segurança jurídica aos investidores, jogavam seus povos no poço da repressão, da corrupção e da pobreza. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.


Eduardo Febbro - De Paris

Paris - Os impérios do Ocidente estão nervosos. A decisão da presidenta argentina de renacionalizar os recursos petrolíferos do país reativou nos europeus o ímpeto da ameaça e da desqualificação, assim como a política dos valores em escala variável. O santo mercado tem prerrogativas acima de qualquer oposição. Além da agressiva campanha que se desatou na Espanha em defesa de uma companhia que, na realidade, sequer é espanhola, a União Europeia somou seus votos em respaldo à multinacional. A inesgotável e esgotadora responsável pela diplomacia da UE, Catherine Ashton, advertiu que a decisão argentina “era um muito mau sinal” para os investidores estrangeiros. Por sua vez, o presidente da Comissão Europeia José Miguel Barroso, disse que estava muito “decepcionado” pela medida de Buenos Aires.

O vice-presidente da Comissão Europeia, o italiano Antonio Tajani, sacou um leque de ameaças: "Nossos serviços jurídicos estudam, de acordo com a Espanha, as medidas a adotar. Não se exclui nenhuma opção", disse. Cúmulo do absurdo, o Parlamento Europeu de Estrasburgo, que reúne os representantes do povo, se presta a votar uma resolução contra a Argentina.

Um traço mais da confusão que leva a uma instituição política, surgida do voto popular, a clamar pelos interesses de uma multinacional. O Parlamento Europeu nada fez para denunciar as empresas do Velho Continente que, em nome da segurança jurídica, investiam e investem seus capitais em países amordaçados por regimes assassinos que, ao mesmo tempo que ofereciam segurança jurídica aos investidores, jogavam seus povos no poço da repressão, da corrupção, do assassinato das liberdades e da pobreza. A defesa dos interesses nacionais contra os do mercado é algo que ficou na garganta da muito liberal União Europeia.

A UE revisitou seus “valores” recentemente, no ano passado: em troca da ajuda aos países árabes, a UE pede eleições democráticas, luta contra a corrupção, abertura comercial e proteção dos investimentos. Antes, não lhe importava que um punhado de ditadores e autocratas esmagassem seus povos enquanto a abertura comercial e a proteção dos investimentos estivessem garantidas. A fonte da democracia fechava os olhos enquanto suas empresas pudessem operar a seu bel-prazer.

A mesma dupla linguagem, duplo valor, envolve a escandalosa política das subvenções agrícolas da UE. Instrumento de destruição dos mercados, perverso mecanismo de falsificação dos preços internacionais, as subvenções se aplicam em apoio a uma corporação, a dos agricultores. Pouco importa que o planeta pague pela proteção de um setor. O porta-voz do Comissário Europeu para o comércio, John Clancy, disse ao canal EuroNews que a decisão da presidenta “destrói a estabilidade que os investidores procuram”.

Tocar numa empresa europeia é sinônimo de uma declaração de guerra ou de pisotear a identidade. Hoje reúnem o Parlamento Europeu, em outras épocas talvez tivessem enviado a marinha para bloquear o porto de Buenos Aires como ocorreu em 1834, quando Juan Manuel de Rosas se negou a que os súditos franceses ficassem isentos de suas obrigações militares e decidiu impor um gravame de 25% às mercadorias que chegavam do exterior com destino a Buenos Aires.

A imprensa europeia e os analistas propagam um cúmulo alucinante de omissões e mentiras. Frases como “nacionalismo petroleiro” ou “tentação intervencionista” do Estado argentino, se tornaram uma consigna repetida em todas as colunas. Como se qualificaria então a defesa de uma empresa por parte das instituições políticas da União? Euro-nacionalismo de mercado, escudo político para os interesses privados, etnocentrismo liberal?

E, assim mesmo, o discurso do nacional contra o global, do local contra o multilateral não é uma exclusividade peronista. O próprio presidente francês, Nicolas Sarkozy, o reativou com um vigoroso discurso durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais do dia 22 de abril e seis de maio (primeiro e segundo turno). O presidente candidato propôs renegociar o acordo de Schengen que regula e garante a livre circulação das pessoas e revisar os acordos comerciais que ligam os 27 países membros da União Europeia.

No primeiro caso e por razões claramente eleitorais, Sarkozy considera que os acordos de Schengen não permitem regular para baixo os fluxos migratórios. No segundo, que tem dois capítulos, se trata primeiro de instaurar na Europa um mecanismo similar ao Buy Act American com um “Buy European Act” a fim de que as empresas que produzem na Europa obtenham dinheiro público em caso de licitações. Em segundo lugar, Sarkozy exigiu à Comissão Europeia que imponha um critério de reciprocidade a seus sócios comerciais. Sarkozy disse em seu discurso: “A Europa não pode ser a única região do mundo que não se defende. (…). Não podemos ser vítimas dos países mais fortes do mundo”.

Isto pode ter vigência também para o resto do planeta. O patriotismo europeu bem vale o suposto “patriotismo petroleiro”. Ali onde se encontra em desvantagem, a UE impõe seus limites, ativa seu lobby ou bota suas instituições democráticas a atuar como polícia moralizadora. O livre comércio e o direito monárquico das empresas sobre os recursos naturais, a vida humana e as geografias não é o último estado da humanidade. Há vida depois de tudo, antes e depois da Repsol.

Todo o aparato jurídico da UE se colocou em marcha para sancionar isso que o jornal espanhol El País chama “o vírus expropriador” de Cristina Fernández de Kirchner. O “vírus” do mercado global começa a fazer seu trabalho. A UE está ofendida. Tocaram em seu filho pródigo, a liberdade de brincar com o destino dos povos em benefício de suas empresas. Uma guerra moderna onde o gigante vai sancionar um sócio que deixou de apostar em um tabuleiro onde só ganham os capitais que se volatilizam como os valores democráticos e de justiça que defenda a sacrossanta União. Seu hino à liberdade é geométrico. Enquanto a grana encha seus bancos, o sangue pode correr, como na Tunísia, Líbia, Egito e tantas outras ditaduras africanas que proporcionam o petróleo para acender as luzes de um século cujo destino está em mãos privadas e suas instituições às ordens das entidades financeiras e das empresas.

Tradução: Libório Junior

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Rafael Correa: América Latina vive agora um consenso sem Washington


Rafael Correa


O presidente equatoriano, Rafael Correa, afirmou que a América Latina está passando de dominada por el consenso de Washington para  viver com o consenso sem Washington.
Ele explicou que era óbvio e previsível o que iria acontecer na chamada Cúpula das Américas, em Cartagena, Colômbia, por tratar de temas de real importância para os povos da América Latina, entre eles o bloqueio a Cuba e as ilhas Malvinas.
Em entrevista concedida à rede CNN de televisão, no Palácio  de Carondelet, Correa reiterou que Cuba é uma nação vetada nestes encontros continentais por pressões de Estados Unidos e Canadá. “Se um país é excluído da Cúpula das Américas por capricho de outro país, então que se chame de qualquer outra coisa, encontro com os Estados Unidos, mas não Cúpula das Américas”, sugeriu.
Ele recordou que em 2009, na Cúpula em Trinidad Tobago, já se havia falado da necessidade de integrar Cuba plenamente a esse foro internacional, mas até agora não se fez nada neste sentido, e acrescentou que não ir à Colômbia foi uma decisão radical, mas necessária.
Correa diz que uma das ações imediatas, referentes a direitos humanos a nível continental, seria os Estados Unidos fecharem a base de Guantánamo, imposta à ilha de Cuba até hoje. Diante da questão de Obama sobre a disposição de Cuba em respeitar os direitos humanos, Rafael Correa respondeu “maravilhoso, então que eliminem a base de Guantánamo, pois é o maior desrespeito aos direitos humanos e à soberania de um país”. Acrescentou que respeita muito o presidente estadunidense, Barack Obama e o considera uma boa pessoa, mas que não está de acordo com certas atitudes da sua política internacional. “Quem é ele para se converter em juiz do bem e do mal, ou decidir o que é ditadura e o que é democracia? Já basta! Creio que a história nos ensinou bastante sobre a dupla moral dos Estados Unidos em suas relações internacionais”, continuou Correa.
Ele afirma ser incorreto pensar que a democracia ocidental é o único modelo a seguir e, nesse contexto, quem sabe que mudanças Cuba precisa são suas autoridades e seu povo. “Nnguém vai lhes impor essas mudanças, eles vão decidir soberanamente”, disse ele, acrescentando que é claro que o cerco comercial a esse país é uma violação do direito internacional, dos direitos humanos e da soberania de Cuba.
Apontou a dupla moral de países como os Estados Unidos, porque “falam de direitos humanos, mas que pior atentado aos direitos humanos que a tortura em Guantánamo?”
 (Con información de Prensa Latina)

Pela segunda independência dos países latinoamericanos


quarta-feira, 18 de abril de 2012



Na Colômbia, Cartagena de Índias, ficou demonstrado que existe um abismo crescente entre "Nossa América" martiana e o "Norte revolto e brutal que nos despreza". Lá, teve lugar uma rebelião da América Latina e o Caribe contra a imposição de "um governo e meio", que exercia um veto imperial aos parágrafos do projeto de Declaração Final da chamada Cúpula das Américas, os quais exigiam o cessar do bloqueio e da exclusão de Cuba dos eventos hemisféricos.

Desde a Cúpula de 2009 desfizeram-se as ilusões sobre a política do presidente Barack Obama, abriu-se uma fenda entre seus discursos e seus atos, não houve mudanças na política contra a América Latina e o Caribe, o bloqueio a Cuba continuou e, inclusive, acirrou-se no setor financeiro, apesar da condenação internacional e do voto esmagador da Assembleia Geral das Nações Unidas, com o objetivo de "provocar fome, desespero e o colapso do governo", o que agora se conhece como "mudança de regime".

A ALBA se reuniu em 4 de fevereiro passado, em Caracas, por ocasião de se comemorar a heróica revolta cívico-militar de 1992, aprovou uma Declaração acerca da soberania argentina sobre as ilhas Malvinas, outra sobre o bloqueio e considerou injusta e inaceitável a exclusão de Cuba destes eventos. O presidente Rafael Correa afirmou que, caso não se resolvesse esta questão, o Equador não participaria da Cúpula de Cartagena, afirmação que abalou a região. Essa valente posição foi o prelúdio do acontecido.


Nessa reunião, o presidente Raúl Castro expressou: "Eu quero agradecer aos senhores, ao presidente Rafael Correa, a Evo Morales e demais presidentes estes pronunciamentos... Este é um tema muito importante, têm toda a razão. Nós jamais temos exigido que se tome uma medida como essa, mas nem por isso vamos deixar de apoiar esta, que consideramos muito justa".

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Sánchez, que nos visitou, de maneira respeitosa, e recebeu como resposta do presidente Raúl Castro que Cuba, caso ser convidada, participaria, como sempre, com muito respeito, apego aos princípios e à verdade, teve o mérito de expor diretamente o tema do bloqueio e a exclusão de Cuba.

O presidente Evo Morales, que tinha sido o primeiro em questionar a referida Cúpula, nessa reunião de fevereiro da ALBA, em Caracas, afirmou em Cartagena: "Estamos numa etapa de desintegração. Não é possível que um país possa vetar a presença de Cuba; portanto, não há integração e com a ausência do Equador, como uma ausência justa, em protesto pelo veto dos EUA contra Cuba, de que integração estamos falando?

Em 13 de abril passado, o presidente Hugo Chávez expressou: "agora, com certeza, se estes dois governos, os Estados Unidos e o Canadá, se negam a discutir temas tão profundamente consubstanciados, como o da América Latina e o Caribe, como o tema de Cuba, da irmã Cuba, da solidária Cuba, ou o tema das Ilhas Malvinas, para quê mais Cúpulas das Américas então?, haveria que terminar com essas Cúpulas . Anteriormente, tinha escrito: "Também clamamos pelo fim do vergonhoso e criminoso bloqueio contra a irmã República de Cuba: bloqueio que, há mais de 50 anos, o império exerce com crueldade e sevícia, contra o heróico povo de José Martí".

Daniel Ortega, num ato de solidariedade com Cuba, em 14 de abril, em Manágua, afirmou: "Acho que é o momento de o governo dos Estados Unidos escutarem todas as nações latino-americanas das mais diversas ideologias, dos mais diversos pensamentos políticos; desde os pensamentos mais conservadores até os mais revolucionários, mas eis aí todos, coincidindo em que Cuba tem que estar presente nestas reuniões ou não haverá próximas Cúpulas, chamadas ou mal-chamadas das Américas".

Foi impressionante a sólida posição unitária da Nossa América sobre o bloqueio, a exclusão de Cuba e as Ilhas Malvinas. Foi essencial a firmeza e dignidade da presidenta da Argentina, na defesa enérgica dessas causas.

Sentimos muito orgulho quando a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, defendeu com dignidade ante Obama, que a Pátria Grande somente pode ser tratada como igual e confirmou a posição comum de apoio a Cuba e à Argentina.

Os líderes dos países do Caribe mostraram a solidez da Comunidade do Caribe (Caricom), demonstrando que esta e a América Latina são igualmente indivisíveis. Sua defesa da soberania argentina sobre as ilhas Malvinas e seu tradicional e categórico apoio a Cuba foi muito importante.

As forças da esquerda, os movimentos populares, as organizações sindicais, juvenis e estudantis, as organizações não-governamentais, reunidas no Congresso dos Povos, em Cartagena, expressaram emotiva solidariedade a Cuba. A reunião interparlamentar das Américas aprovou uma declaração que condena a exclusão e o bloqueio ao nosso país.

Os Estados Unidos subestimaram que, em 2 de dezembro de 2011, em Caracas, por ocasião do bicentenário da independência, sob a liderança de Hugo Chávez, no 55º aniversário do desembarque do iate Granma, tinha nascido a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), o que o líder da Revolução, Fidel Castro antecipara, em fevereiro de 2010, quando escreveu que "nenhum outro fato institucional do nosso hemisfério, durante o último século, reflete similar transcendência".

Quando nessa primeira Cúpula Cuba foi eleita presidenta da Celac, em 2013, o general-de-exército Raúl Castro Ruz declarou: "com as decisões que aqui adotamos e com o trabalho em parceria, dos últimos três anos, reivindicamos mais de dois séculos de lutas e esperanças. Chegar tão longe nos custou esforço, mas também sangue e sacrifício. As metrópoles coloniais de outrora e as potências imperialistas de hoje têm sido inimigas deste empenho".

Obama tampouco parece entender o significado da vitória bolivariana de 13 de abril de 2002 nem que, precisamente agora, se completam dez anos do golpe de Estado, organizado por seu predecessor, com o apoio da OEA e do governo espanhol de José Maria Aznar, contra o presidente Hugo Chávez, com o qual pretenderam aniquilar a Revolução bolivariana e assassinar seu presidente. Como expressou o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, fitando aos olhos de Obama, em memorável discurso na Cúpula de Cartagena, o governo norte-americano persiste na ideia de intervir nos assuntos internos da Venezuela e de apoiar os golpistas, que agora viraram candidatos eleitorais.

O presidente Obama deveria entender que a Cúpula de Cartagena não foi propícia para aconselhar democracia a Cuba. Ainda menos se quem pretendeu fazê-lo esteve ali totalmente isolado, obrigado a exercer um veto imperial, por falta de ideias e de autoridade política e moral; enquanto se dedica à demagogia, rumo a umas eleições escabrosas. Melhor, deveria ocupar-se de suas guerras, crise e politiquice, que de Cuba, nos ocupamos os cubanos.

Os Estados Unidos jamais quiseram debater sobre as terríveis consequências para a América Latina e o Caribe do neoliberalismo nem sobre os imigrantes nos Estados Unidos e Europa, separados de suas famílias, retornados cruelmente ou assassinados em muros como o do Rio Bravo. Tampouco aceitaram jamais falar dos pobres, que são metade da humanidade.

O império e as outrora metrópoles coloniais não escutam os "indignados", seus cidadãos e minorias que vivem na pobreza nessas sociedades opulentas, enquanto salvam com avultadas somas banqueiros corruptos e especuladores. Na superpotência, 10% das famílias controla 80% da riqueza. Esses recursos são suficientes para resolver os problemas do planeta.

A novidade em Cartagena é que boa parte dos governos, com diferenças naturais e pontos de vista diferentes, exigiram um modelo alternativo que privilegie a solidariedade e a complementariedade, ante a concorrência com base no egoísmo; que procure a harmonia com a natureza e não o saque dos recursos naturais nem o consumismo desenfreado. Exigiram que se garanta a diversidade cultural e não a imposição de valores e estilos de vida alheios a nossos povos; que se consolide a paz e que se repudiem as guerras e a militarização.

Fizeram um chamamento para recuperar a condição humana das nossas sociedades e para construir um mundo onde se reconheça e respeite a pluralidade de ideias e modelos, a participação democrática da sociedade nos assuntos do governo, incluída a consulta das políticas econômicas e monetárias; para combater o analfabetismo, a mortalidade infantil e materna, as doenças curáveis. Foi exigido o acesso à informação livre e veraz, o acesso à água potável; reconheceu-se a exclusão social e que os direitos humanos são para o exercício de todos e não para utilizá-los como arma política dos poderosos.

Desta vez, o governo dos EUA teve que escutar, não uma voz quase única, como aconteceu durante décadas, nem uma escassa minoria, como até há pouco, Agora foram maioria os povos que falaram na Cúpula, representados por seus presidentes e chefes de delegações, para oferecer este debate imprescindível, ou através da atitude dos que não foram. A Cúpula teve que ser censurada porque o império escuta com ouvidos moucos.

Em Cartagena ficou a nu a doutrina Monroe de "América para os (norte) americanos". Como se ninguém lembrasse o engano da Aliança para o Progresso, em 1961, e da Iniciativa para as Américas ou ALCA, em 1994; agora querem enganar-nos com a "Aliança Igualitária".

Como prognosticou, num evento internacional, em Cartagena, em 14 de junho de 1994, o comandante-em-chefe Fidel Castro Ruz, as chamadas Cúpulas das Américas somente têm beneficiado o Norte.

José Martí, quando julgou uma reunião similar, em Washington, há 105 anos, escreveu: "depois de ver com olhos judiciais os antecedentes, as causas e fatores do convite, urge dizer, porque é a verdade, que tem chegado para a América espanhola a hora de declarar sua segunda independência".

Durante o próprio evento, a ALBA tornou oficial e público que, sem uma mudança radical da natureza destas Cúpulas, não assistirá mais. Outros líderes continentais, também advertiram.

Quanto à OEA, esse cadáver insepulto, não há nada que falar.

A República Argentina tem o direito inalienável de soberania sobre as Ilhas Malvinas, Geórgias do Sul e Sandwich do Sul e os espaços marítimos circundantes.

Cuba lembra que a Pátria Grande não estará completa até que o irmão povo portorriquenho exerça seu direito à autodeterminação e Porto Rico, essa nação latino-americana e caribenha, submetida pelos Estados Unidos ao colonialismo, atinja sua total independência.

Com um sólido consenso de soberania regional e defesa de nossa cultura, dentro de nossa rica diversidade; com quase 600 milhões de habitantes; com enormes recursos naturais; Nossa América tem uma chance para resolver os graves problemas de extrema desigualdade na distribuição da riqueza e pode, com sua força, evidente, contribuir para "o equilíbrio do mundo", para a defesa da paz e para a preservação da espécie humana.

Para isso, ante as tentativas de dividir-nos, necessitará manter-se unida.

Ninguém esqueça no Norte, que há 51 anos, o povo cubano defendia, a estas mesmas horas, uma Revolução Socialista nas areias ensanguentadas de Praia Girón, e que, a partir desse momento, "todos os povos da América foram um pouco mais livres".